“Desde os primeiros contatos, eles já me chamaram de pai”

José Heleno Ferreira, de 41 anos, solteiro e pai de três crianças adotadas.

O ditado popular já diz: “Pai é aquele que cria”. O primeiro Dia dos Pais de José Heleno Ferreira provavelmente será inesquecível. O professor, de 41 anos, venceu três dos maiores obstáculos de uma adoção. Solteiro, ele adotou três irmãos com idade em que a adoção já fica mais difícil e de etnia diferente da sua. Hoje, é chamado de pai por Letícia, de sete anos, Lucas, de cinco, e Túlio, de quatro.

José Heleno conta que desde a sua juventude sempre quis ter filhos. “Durante um momento da minha vida, eu tive uma relação com uma companheira e quis ter filhos biológicos naquele momento e não foi possível”, diz.

Segundo o professor, não existe diferença em ter um filho biológico e um adotivo. “Eu não via diferença alguma, porque ter filho é cuidar e conviver. Neste sentido, não fazia diferença ser um filho biológico ou adotivo”, conta.

Devido a impossibilidade de ter filhos biológicos naquele momento, José Heleno optou por adotar uma criança, mas a companheira não tinha a mesma opinião. Com a separação, o professor decidiu adotar uma criança sozinho, e entrou com o processo de adotante que durou cerca de um ano. “Inicialmente, eu havia colocado no cadastro que gostaria de adotar apenas uma criança e que tivesse até seis meses de idade. Mas quando me chamaram e eu conheci os três que hoje são meus filhos, resolvi assumir a adoção. Não vi empecilho diante do fato de eles terem na época três, cinco e seis anos de idade”, revela.

Para José Heleno, a maior mudança em sua vida foi de que morava sozinho há algum tempo e tinha a casa toda para ele. “Tive que mudar de casa porque a onde eu morava era pequeno, e isso foi o mínimo. A mudança maior mesmo foi na rotina, no dia-a-dia, desde o momento de levantar da cama, como ter que acordar três crianças, preparar o café, prepará-los para irem à escola e depois o almoço. Agora eles fazem parte da minha vida, dividem comigo essa rotina, além dos problemas que surgem. Criança adoece, dá trabalho, mas é linda, maravilhosa”, conta.

Pai

Segundo José Heleno, é emocionante ser chamado de pai. “Todos três me chamam de pai e foi surpreendente, porque não foi colocado para eles, nem da minha parte, nem da parte de ninguém. Desde os primeiros contatos, eles já me chamaram de pai e eu atribuo isso ao desejo deles de terem um”, diz emocionado.

A afinidade foi recíproca, José Heleno revela que a partir do momento que conversou com as crianças e falou do desejo de que eles fossem morar com ele, as crianças foram bastante carinhosas. “Pensar tudo isso é muito bonito. Cada vez que eu os escuto me chamar de pai é algo lindo”, fala.

Educação

José Heleno revela que assumir uma condição de estar dividindo a vida com três crianças, de estar recebendo delas carinho, atenção, solicitações, pedidos e, ao mesmo tempo, tentando oferecer a elas carinho e educação, é uma responsabilidade muito grande. “A educação que me refiro é algo muito mais amplo do que a educação escolar. Eu falo sobre o processo de formação do ser humano, de construir um cidadão, uma pessoa feliz, ética, justa e solidária. Eu acredito que este desenvolvimento acontece em todos os momentos de convivência”, destaca.

Para José Heleno, na adoção não há como pensar mais individualmente. “É pensar sua vida de uma forma diferente. Não é mais a minha vida, não sou mais eu sozinho. Agora sou eu mais Letícia, Lucas e Túlio”, justifica.

Justiça

Embora estando com a guarda das crianças há oito meses, José Heleno ainda não tem os documentos oficiais dos filhos, o que causa um certo receio, já que os pais biológicos das crianças moram em Divinópolis. “Eu tenho temor, há uma insegurança principalmente porque eu não tenho os documentos oficiais deles, apesar de serem meus filhos há oito meses. Mas este receio está cada vez menor. No início, eu era mais forte. Hoje eu sinto que se por acaso isto acontecer, pode ser que tenha algum problema na Justiça. Mas por parte das crianças, não haveria mais e isso me traz tranquilidade”, explica.

Embora sabendo que pode vir a ter algum problema com os pais biológicos das crianças, José Heleno acredita que seriam problemas com a Justiça, mas que ele, juntamente com os filhos, enfrentariam. “Seriam problemas burocráticos, o que é chato, mas que enfrentamos. O problema afetivo eu acho que já não existe mais, hoje já é tranquilo”, esclarece.

Família

Segundo o professor, sua família teve uma abertura muito grande e receberam as crianças muito bem. “Foi meio assustador no início, os avós terem três netos de repente, os tios terem três sobrinhos. Mas hoje os três chamam meus pais de avós, e os meus pais os chamam de netos”, conta.

José Heleno ainda diz que o fato dele ser solteiro não tira das crianças a imagem de uma família. “Minha família é estruturada, eu e meus três filhos. Ela vem se construindo com muita alegria e muita felicidade”, diz.

Preconceitos

José Heleno revela que uma coisa muito importante na questão da adoção é o fato das pessoas acharem que o adotante faz uma caridade ou um favor para as crianças, e que esta imagem tem que ser desfeita. “Eu não estou fazendo nenhuma caridade, nenhum favor para a Letícia, o Lucas e o Túlio, muito pelo contrário. É uma relação de amor, de entrega, é uma partilha e eu não tenho dúvida de que quem ganha com isso tudo sou eu”, fala.

Outro preconceito que José Heleno diz que tem que ser vencido é a questão da adoção de crianças mais velhas. “O fato de eles terem tido uma história anterior não dificultou em nenhum momento o estabelecimento de uma relação de amor e respeito. É possível estabelecer uma relação de amor, carinho e respeito em qualquer idade, a qualquer momento”, finaliza.

Fonte: Gazeta do Oeste

(34) pessoas leram esse texto.

Compartilhe:

Deixe sua opinião

Comentários

Diogenes Duarte

Jornalista - DRT 986/MS - Servidor do Poder Judiciário do MS - Membro do Grupo AFAGAS.