Adoção sem barreiras

MARLETH SILVA, 38 anos, jornalista, solteira, adotou THIAGO quando ele tinha 6 anos. Hoje, mais do que nunca, sabe que a gente se apaixona pelas crianças maiores assim como pelos bebês.

“Realizei meu sonho de adotar uma criança em 2004: reuni a papelada exigida em uma semana e, passados menos de quatro meses, fui apresentada ao meu filho. O processo andou mais rápido do que eu esperava, porque não coloquei limitações quanto à idade da criança. Uma tarde, a psicóloga da Vara da Infância me telefonou avisando que eu poderia conhecer o Thiago na casa-lar onde ele vivia: se eu confirmasse a adoção, o processo se iniciaria. Se dissesse não, esperaria até me colocarem em contato com outra criança. Preferi abrir mão dessa possibilidade de escolha – que achei assustadora e antinatural – e aceitar o menino antes mesmo de vê-lo. A partir daí, passamos por uma fase de adaptação, com o Thiago ainda morando na casa-lar. Numa de minhas visitas, anunciei que queria ser sua mãe e ele não me fez muitas perguntas. Criança não fica raciocinando como será o relacionamento. Tudo o que ele queria era conhecer nossa casa, sair para brincar, tomar sorvete, chamar seus amigos para ir ao McDonald’s conosco. Depois de quatro ou cinco encontros, Thiago já gostava de mim, eu dele, e me pediu para ir para casa. Simples assim.

Nas primeiras semanas, meu filho me chamava de tia e eu sentia dificuldade para dizer coisas como vem com a mamãe”. Isso foi há quase dois anos. Desde então, tudo melhorou, nós dois relaxamos. Um dia, em um consultório médico, a secretária perguntou o nome do pai dele para pôr na ficha. Respondi que ele não tinha pai. Thiago entrou na conversa todo animado e deu um susto na moça: “Sabe por que eu não tenho pai? Porque fui adotado”.

Ele disse essas palavras como quem divulga uma grande notícia. Me dei conta de que, na cabeça dele, ganhar uma família aos 6 anos – portanto, depois de muito tempo de espera – foi um evento feliz. Tanto que uma vez não entendeu um desenho animado em que um menino chorava ao saber que tinha sido adotado. Para aquele personagem, a descoberta representou um choque. Para o meu filho, a adoção teve outro sentido: ele foi escolhido, sente-se amado por uma mãe que não passa um dia sem dizer que ele é a coisa mais maravilhosa que ela já viu. Inicialmente, como a maioria das pessoas, eu pensava em uma criança pequena. Até uma psicóloga que consultei enfatizou que eu devia adotar um bebê. Mas minha experiência como voluntária (durante três anos, eu levava grupos de crianças para passear) me mostrou que a gente se apaixona pelas maiores assim como pelos bebês. Isso derrubou uma barreira e facilitou tudo.

Nunca imaginei a dimensão da felicidade que a maternidade me traria. Muitas vezes me perguntei como foi possível acontecer tamanho milagre. E ainda que eu saiba que não houve nenhum fenômeno misterioso, que tudo é resultado de um movimento meu (inscrever-me na Vara da Infância, aceitar aquele menino), preciso da palavra “milagre” para expressar a revolução que ocorreu na minha vida.

Fonte: Revista Cláudia

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Diogenes Duarte

Jornalista - DRT 986/MS - Servidor do Poder Judiciário do MS - Membro do Grupo AFAGAS.

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