As dificuldades e as alegrias dos casais que superam a discriminação

As dificuldades e as alegrias dos casais que superam a discriminação e adotam crianças abandonadas com algum tipo de deficiência

maefilho“Fui buscar o Rafael na Bahia. Eu e meu ex-marido não sabíamos o que ele tinha, somente que havia algo que não era normal. Quando o levei ao médico, descobri que tinha paralisia cerebral. Hoje, ele vai todos os dias à escola especial e faz fisioterapia, fono, terapia ocupacional e hidroterapia. Temos de aprender a conviver com a realidade deles”, diz a mãe, Rosina

A paulistana Rosana Márcia Moreira da Silva, de 41 anos, teve uma surpresa num dos corredores do Hospital das Clínicas de São Paulo.duasfamilia Ela comparecia a uma sessão de fisioterapia com seu filho, Ruan, de 2 anos. Enquanto esperavam, percebeu outro garoto, estranhamente parecido com Ruan. “Ele também estava muito inquieto no meu colo, encarando fixamente o outro menino”, conta. Rosana começou a conversar com a outra mãe e as duas, emocionadas, foram encaixando as pontas soltas da história que as reunira ali. Felipe, o outro menino, era irmão biológico de Ruan.

familia1Rosana e seu marido, Martins Alves da Conceição, de 50 anos, adotaram Ruan, um menino com problemas de coordenação motora por paralisia cerebral. Já tinham uma casa cheia, com três filhos biológicos e dois adotivos. Mesmo assim, queriam mais. “Adotei Ruan para dar a ele uma vida melhor, mas sei que nunca será uma criança normal”, explica Rosana. Segundo os médicos, talvez Ruan nunca aprenda a andar. “Fiquei apaixonada por ele quando visitei o abrigo. O fato de ter uma deficiência não faz diferença alguma para mim”, diz Rosana.

“O Gabriel foi muito maltratado pela mãe biológica. Por isso, quando o adotamos, tivemos problemas. Não entendíamos, mas ele não dormia na cama e não entrava no meu quarto. Eu tive de colocar um monte de brinquedos na minha cama para ele perder o medo”, revela Claudia, uma das mães. “O Gabriel é uma criança muito especial e maravilhosa”, ressalta Fernanda, a outra mãe adotiva.pescador

O irmão, Felipe, foi adotado quanto tinha 1 ano por Silvana Maria da Silva Brito, de 30 anos. Hoje tem 3 anos e apresenta o mesmo problema que Ruan, embora num grau mais elevado. A deficiência dos dois foi causada pelo consumo de drogas da mãe biológica no período da gestação. A prima de Felipe foi quem cuidou dele quando a mãe biológica perdeu a guarda. Silvana, que era vizinha dela, soube da história e convenceu o marido a adotar o menino. “Eu já sabia de seus ä problemas, mas era impossível não levá-lo para nossa casa. Ele é muito cativante”, diz Silvana. A dificuldade do casal é bancar os remédios caros, alguns de tarja preta, com o orçamento do marido, faxineiro. O que aliviou um pouco o bolso foi a pensão, de um salário mínimo, que Felipe ganha do governo do Estado pela deficiência.

Quem adota uma criança com deficiência sabe que terá de enfrentar discriminação social e lidar com um filho quase sempre dependente por toda a vida. Pelas dificuldades, é uma escolha de poucos. Na Vara da Infância e Juventude de Pinheiros, em São Paulo, das 50 crianças adotadas em 2004, somente duas eram deficientes. É pouco quando se considera que muitas mães biológicas abusam de cigarros, drogas e álcool durante a gestação e correm risco maior de gerar filhos com deficiência. No entanto, alguns casais não só escolhem crianças especiais para adoção, como vão longe para buscá-las. Há 13 anos, a professora de classe média Rosina Dasti Ventura viajou até o sertão da Bahia junto com o ex-marido para adotar Rafael. Tinha sido avisada por uma amiga freira e enfermeira do hospital que estava atendendo o menino, abandonado pela mãe. Rafael não fala nem consegue se movimentar, mas sempre está com um sorriso no rosto. “O amor que temos é o que vale, se é deficiente ou não fica em segundo plano”, conta Rosina.

violao“Se todos tivessem a oportunidade de conviver com portadores de necessidades especiais, aprenderiam a valorizar coisas que normalmente nem percebemos, como andar, falar, enxergar, ouvir e pensar. Hoje, vejo quanto aprendi com o Pedro. Minha lição maior foi encarar o mundo e ver que a vida nem sempre será perfeita”, revela o pai, Mário

O consultor e autor de livros sobre marketing e negócios Mário Persona, de Limeira, no interior de São Paulo, também foi longe. Há 20 anos ele buscou o filho adotivo, Pedro, em Goiás. O menino, com paralisia cerebral, não fala, não enxerga nem anda. Em Goiás, quando estava com a avó biológica, vivia amarrado na cama. Hoje com 23 anos, Pedro ouve música clássica o dia inteiro. “Ele parece ficar bem tranqüilo com ela”, conta Mário. Para cuidar do menino, o consultor tinha a ajuda de sua filha biológica, Lia. “Acredito que meu irmão mudou a minha vida”, conta ela. Hoje, Lia, que se casou com um americano e se mudou para os Estados Unidos, só fala com Pedro pela internet. Como despedida, escreveu o livro Uma Luta pela Vida (Editora Mondrian), da coleção Anjos Brancos, em que conta a relação que tinha com o irmão. Mário também escreve sobre o filho. Ele criou um site (www.stories.org.br/querocontar/) em que narra, em forma de diário, o que acredita que Pedro gostaria de dizer. O curitibano Gabriel, de 6 anos, é deficiente auditivo. Em abril deste ano, ganhou um presente de suas mães adotivas, Claudia Arzbua e Fernanda Buratto – recebeu o implante de um aparelho auditivo. Com isso, terá uma audição normal. “O Gabriel me ensina que, apesar das dificuldades, ele é uma pessoa feliz”, diz Claudia. “E que ainda aproveita todas as oportunidades para se tornar melhor.”

Fonte: GAASP

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Diogenes Duarte

Jornalista - DRT 986/MS - Servidor do Poder Judiciário do MS - Membro do Grupo AFAGAS.

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