A Educação de Crianças com Necessidades Especiais

por Luiz Schettini Filho

Por que alienar uma parte do todo, se ele perderia o sentido sem suas partes? É bem verdade, que as partes contêm a essência do todo, pois cada parte é, na realidade, a representação do todo. Por que, então, fragmentar o todo para espalhar a angústia da separação? Por que excluir as pessoas do convívio das outras pessoas?

Todas as vezes que acentuamos as diferenças, dando a elas um significado discriminatório, estabelecemos um processo de alienação. Isso é um ato de loucura. A tentativa de exclusão é evidência de perda da sanidade. Rejeitar o outro é rejeitar uma parte de si. A exclusão não dói apenas no outro, mas dói também naquele que o exclui, pois, sem o saber, estará dilacerando sua própria unidade.

Quem se percebe excluído do amor e, conseqüentemente, da aceitação e do aconchego, vive a sufocação da angústia; mergulha na tristeza criada pela rejeição e pelo esquecimento. “A angústia é pressentimento de uma dor futura, enquanto que a saudade é a lembrança triste e complacente de uma alegria e de uma dor passadas” (O livro da dor e do amor, Nasio, p. 27). Não se pode medir a intensidade da angústia dos que se vêem excluídos do direito de viver na comunhão da sociedade humana. Às vezes, a dor por ser muito intensa, ultrapassa o limiar da nossa percepção. A dor não sentida é o silêncio do nosso grito. Os excluídos perdem o amor a si mesmos, porque perderam o amor do outro. É o amor ao outro que torna possível o amor a nós mesmos. Os que excluem, além de evidenciarem a perda do amor pelo outro, perdem o amor por si próprios. A exclusão nunca é unilateral. Quem exclui, também se exclui.

A rejeição por causa da diferença é demonstração do desconhecimento do fenômeno da individualidade, mesmo que a diferença indique originalidade ou mesmo estranheza. “Pessoas diferentes são feitas para coisas diferentes” (A arte de viver, Epicteto, p. 67). Nossa limitação, muitas vezes, não nos permite alcançar o que está além dos parâmetros habituais. Quando nos deparamos com pessoas com necessidades especiais, tendemos a vê-las sob o ponto de vista das suas limitações, comparando-as com as capacidades que imaginamos possuir. Dificilmente, consideramos o que elas são ou que podem realizar o que nós não podemos conseguir ou perceber.

Quando pensamos, por exemplo, na capacidade extraordinária dos nossos sentidos, nos achamos poderosos e quase perfeitos. Que instrumento precioso é o sentido da visão! Ver as formas, os movimentos, as cores nos dá uma sensação de poder e domínio sobre o que vemos. Esquecemos, entretanto, que, se a visão física é um grandioso poder, por outro lado, descobrimos sua profunda limitação, se consideramos tudo o que ela não alcança. Do mesmo modo, ocorre com a audição, o olfato, o tato e o paladar. O não-ver talvez tenha uma amplitude maior do que a capacidade de ver. O ouvir, provavelmente, é menor do que o não-ouvir, isto é, tudo o que não ouvimos é maior do que temos capacidade de ouvir.

Por que excluir os que diferem de nós, sendo nós também tão limitados? Ao excluir os que não podem o que podemos, estamos nos excluindo do mundo dos que são e podem o que não podemos e não conseguimos ser.

Vale a pena citar Epicteto, que, já nos começos da era cristã, escrevia: “Somos como atores em uma peça de teatro. A vontade divina designou um papel para cada um de nós sem nos consultar. Alguns atuarão em peças curtas, outros em longas. Podemos ser chamados a desempenhar o papel de uma pessoa pobre, de um deficiente físico, de uma eminente celebridade, de um líder político ou de um simples cidadão comum.
Apesar de não estar sob nosso controle determinar o tipo de papel que nos é atribuído, cabe-nos representar a nossa parte da melhor maneira possível e procurar não reclamar dela. Onde quer que você esteja e quaisquer que sejam as circunstâncias, procure apresentar um desempenho impecável” (A arte de viver, Epicteto, p. 48).

Para a maioria das pessoas, a normalidade está vinculada à aceitação. Isto é, quando aceitamos as pessoas com suas formas peculiares de ser e fazer, desaparece o fantasma da anormalidade, da incapacidade e da impotência. As pessoas são o que podem ser e é, dessa forma, que precisam ser amorosamente aceitas, pois é também, assim, que elas terão condição de aceitar amorosamente nossa aceitação. Cada dificuldade carrega em si a sua própria solução, se não entendermos que a solução deverá ser sempre a que imaginamos ou desejamos.

As grandes conquistas exigem a coragem de “desistir” delas próprias. Isto é, conquistar não é um ato do poder meramente individual. A comunhão com o que é bom, belo, forte e inspirador, dentro e fora de nós, é o ambiente em que se realizam nossas conquistas.

Não temos o direito de excluir ou impedir a participação de ninguém das coisas que são comuns a todos. Nada é propriamente nosso. Entretanto, será nosso quando passar a pertencer a todos. É o uso comum do que temos, que dará sentido à nossa existência no mundo. Isso só será possível, quando vivermos uma harmonia interior. Quando mudamos a realidade interna, o que acontece fora de nós é percebido – visto e sentido – como uma verdade consentânea com o que estamos vivendo em nossa interioridade.

De tudo isso se conclui, que não seremos completos sem reconhecer nossa incompletude ao alijarmos de nosso convívio e impedirmos de participar de nossas conquistas aqueles que, sendo semelhantes, não são iguais a nós. A semelhança é o bastante para nos conferir a qualidade de humanos com direitos individuais. A semelhança é o atestado da diferença. “Para cada experiência há um sujeito diferente” (Como conhecer Deus, Chopra, p. 309).

São poucas as coisas que podemos ensinar às outras pessoas. Quando muito, podemos exemplificar ensinamentos com nossa conduta pessoal. Ficamos, por vezes, ansiosos para ensinar as coisas boas que aprendemos, mas esbarramos nas formas peculiares, individuais e próprias de cada um.

Daí a nossa frustração. Gibran Khalil Gibran nos alerta: “Pena que as gazelas não possam ensinar a velocidade às tartarugas” (O Profeta, p. 62).
Avaliar as pessoas por aquilo que elas não podem ser ou fazer é colocarmo-nos como exemplos de poder e perfeição, o que já indicaria fraqueza e limitação.

Há pessoas que expulsamos do nosso convívio, ou que lhes negamos os mesmos direitos que possuímos, porque as percebemos com diferenças acentuadas – que interpretamos como deficiências – em relação a nós. Daí o sentimento de pena ou desrespeito e, mesmo, de desprezo. Reservamos para elas as migalhas da atenção, do tempo e da nossa comunhão.

Tão grave e cruel quanto a rejeição aos “excluídos”, é a nossa atitude com os que chamamos de “quase excluídos”. Na realidade, são excluídos, da mesma forma.

Quem seriam os “quase excluídos”? Sem dúvida, eles são em número muito maior do que aqueles que chamamos de excluídos por serem portadores de necessidades especiais. As pessoas abandonadas na rua, com certeza, se enquadram na categoria dos excluídos. E as que estão dentro das famílias, das instituições públicas, abandonadas, massacradas pela rejeição afetiva? Chamá-las de “quase excluídos” seria, talvez, um eufemismo.

Encontramos dentro de muitas famílias pessoas que, independentemente de sua idade, ficaram à margem, por não conseguirem acompanhar a expectativa da maioria e nem demonstraram capacidade de autonomia sem ônus para os demais. Como não apresentam deficiências visíveis e comprovadas pelos meios tradicionais de diagnóstico, são alvo de pressão e repressão, recriminação e crítica, o que, em muitos casos, as levam a criar defesas inadequadas, para conseguir manterem-se vivas em um ambiente que não fornece os nutrientes afetivos para tentar a independência que se coadune com suas capacidades pessoais.

Além de tudo isso, muitas dificuldades que essas pessoas enfrentam são a resultante de lacunas afetivas formadas ao longo das relações interpessoais com as figurais parentais, ou com quem tentou substituí-las no grupo imediato de convivência – a família ou a instituição pública de acolhimento – ou nos grupos que frequentam, como, por exemplo, a escola.

Há pessoas que vivem cobertas de andrajos, porque foi a roupagem que as circunstâncias lhes ofereceu. Sob os farrapos de suas vestimentas, estão humanos à espera da humanidade de outros humanos. Excluí-los por não termos conseguido encaixá-las nos processos que consideramos adequados, é desistir antes de fazer o mínimo: manifestar o amor que propicia a recuperação.

Amar a quem nos agrada ou gratifica com uma resposta aos nossos esforços educativos, é amor prazeroso. Amar aquele que resiste – seja pelo descaso ou insensibilidade – às mudanças que desejamos, é amar amorosamente. Esse é o amor corajoso, que não se dobra à persistência do erro nem à permanência do tempo. Às vezes, precisamos nos curvar, como fazem as árvores diante das grandes tempestades, para não ser desarraigadas da terra. Curvar-se lembra humildade e paciência. É, desse modo, que, logo que passa a tempestade, voltamos à nossa posição para continuar dando fruto e sombra.

Pensamos ser corajosos quando arrostamos perigos ou investimos com palavras fortes e ácidas contra os erros e as fragilidades alheios. Com certeza, coragem é uma outra coisa. “…a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero” (A coragem de criar, Rollo May, p. 11).

A coragem amorosa nos leva à dedicação independentemente das conseqüências. Ao nos entregarmos corajosamente, seja para o amor ou para a rejeição, não sairemos ilesos. Ficará sempre uma marca em nossa alma. Cabe-nos escolher a marca que nos servirá de identificação.

Não precisamos temer o futuro e, nem mesmo, o passado, que conhecemos ou desconhecemos. Não vemos as pessoas como foram, mas sim como são no presente. Amamos sempre no presente, mesmo que tenhamos amado desde o passado. O que nos dá vida é o amor que dedicamos na relação com a atualidade amorosa. Para o amor não importam nem o antes e nem o depois.

O presente não vem do passado nem do futuro, por isso, no presente está contida a idéia da eternidade. Vivemos a eternidade ao viver o presente. É como se a eternidade fosse uma “sucessão de presentes”. Temos, portanto, a oportunidade extraordinária de viver o presente com sabor de eternidade. Se bom for o presente, viveremos a plenitude; se mau, viveremos a deterioração.

É no âmbito do existir que se movimenta a aceitação ou a rejeição, a exclusão ou a inclusão. A idéia de existir contém em si também a idéia de insistir; e insistir é uma função humana. Uma das formas de insistir é a determinação de amar, apesar da reação do outro.

Às vezes, os resultados desejados dependem de insistirmos um pouco mais. Não insistir com o outro para que ele mude, segundo queremos, mas insistir conosco para esperar, amorosamente, que ele encontre sua forma de ser feliz e coerente consigo mesmo.

O amor esperançoso não sabe conviver com a exclusão.

Veja também: http://afagas.org.br/2016/07/compreendendo-os-pais-adotivos-luiz-schettini-filho/

Fonte: http://www.interblogs.com.br/luizschettini/

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