Categoria Adoção Tardia

porDiogenes Duarte

A LAMA E AS FLORES

img-20161020-wa0007Na última crônica escrevi sobre a Stéfani. Ela tem 14 anos e mora na Casa Lar Pe. Oscar Bertholdo. Ela quer o melhor presente do mundo, uma família que a ame e a aceite do jeitinho que ela é.

Sou juiz e tenho acesso ao Cadastro Nacional de Adoção – CNA. A Stéfani consta no CNA. Ao lado do nome aparece (11). Cliquei no (11) e abriu uma tela com 11 nomes. São os habilitados que têm interesse em adotar uma menina de 14 anos, sem irmãos, sem problemas de saúde, comportada e educada.

Apenas 11. Os primeiros 10 são brasileiros. Todos têm registros de ocorrências junto ao seu cadastro: já adotaram ou foram cadastrados de forma equivocada. Nenhum deles tem efetivo interesse. O 11º é um casal italiano – tem ocorrência: aceita irmãos, mas menores de 14 anos.

Acreditem! Em todo o Brasil, não há nenhum habilitado que queira adotar uma menina de 14 anos.

Levei, de imediato, o assunto ao conhecimento dos meus filhos Júlia (15) e Murilo (13) e expliquei o caso. Pedi, humildemente, que aceitem os pais que eles têm. Do contrário, ninguém os quererá adotar. A Mariana (2), minha terceira filha, teria melhor sorte.img-20161020-wa0008

A Stéfani nasceu em 2002. Fiz um teste: alterei o ano para 2006. Ela teria 10 anos. O número entre parênteses saltou para (90), haveria 90 interessados em adotá-la.

Novo teste: alterei o ano para 2012. Ela teria 04 anos (dez anos a menos). O número saltou para (4.412).

Alterei para 2016. Ela teria 09 meses. O número saltou para (14.586).

Os números falam por si sós. Causam uma dor de chuva caindo sem parar, uma dor sem pai e sem mãe. Talvez, depois da chuva, nasçam novas ervas e flores para a primavera e minhocas para os passarinhos.

Cheguei à conclusão que a Stéfani nasceu 14 anos antes do tempo.

Ainda assim, tenho certeza que, em meio a todos esses números, haverá um número ideal para ela. Alguém que a adote porque ela é uma filha tudo de bom. Porque estes números levam à ignorância e ao barro; mas a lama, bem trabalhada, é propícia às flores.

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porDiogenes Duarte

Amor contra a maré: cresce número de pais que optam por adotar crianças mais velhas

Há sete anos o bancário aposentado Carlos Alberto Marques de Oliveira, de 63 anos, e seu companheiro, o professor André Luiz de Souza, de 42, adotaram duas meninas negras, na época com 5 e 7 anos, e com cinco irmãos. O casal faz parte de um grupo que, remando contra a maré, vem aos poucos ajudando a mudar o quadro da adoção no Brasil, onde a preferência é por bebês brancos, saudáveis, sem deficiência e sem irmãos, fazendo emperrar uma fila onde há quase seis vezes mais candidatos a pais do que crianças à espera de adoção — são 35 mil casais para 6 mil pretendentes a uma nova família. Esta semana, o grupo foi engrossado pelos atores Bruno Gagliasso e Giovana Ewbank.

O casal famoso, pais de Titi, de 3 anos, resolveu encurtar o caminho adotando a menina na África, onde o processo durou apenas um ano. No caso das meninas Vanessa e Valesca, hoje com 12 e 14 anos, respectivamente, a adoção foi obtida no mesmo tempo. Mas Carlos reconhece que seu caso foi uma exceção.

— Quando nos candidatamos, não fizemos nenhuma imposição. Isso acelerou o processo — acredita o morador de Maricá.

A coordenadora das Varas de Infância, Juventude e Idoso da capital confirma a suspeita do pai adotivo. Segundo Raquel Chrispino, o que faz a fila de adoções emperrar é justamente o desencontro da expectativa da maioria dos candidatos a pais com a realidade das crianças aptas à adoção. Segundo ela, das cerca de 2 mil crianças que estão nos abrigos localizados no Estado do Rio, há pelo menos 300 com dificuldade de encontrar um lar por serem negras, terem mais de 8 anos de idade ou serem portadoras de HIV, possuir algum outro problema de saúde ou neurológico ou por pertencerem a grupos de irmãos.

— A cultura da adoção vem mudando aos poucos, com as pessoas optando cada vez mais pelo perfil concreto da criança brasileira. A adoção tardia, por exemplo, que já foi considerada a partir de 4 anos subiu para 8 e a interracial enfrenta cada vez menos barreira. E, nesse aspecto, o exemplo dado pelos famosos está ajudando a quebrar resistências — afirmou Raquel Chrispino.

Em grupos familiares, o principal desafio da Justiça é evitar a separação. Em casos como o da dupla Vanessa e Valesca, os outros três irmãos foram distribuídos por mais duas famílias, que se visitam e mantêm contato frequente.

— Eu já tinha essa vontade de adotar. E decidi. Eu tenho um irmão adotivo então fui criado com isso na cabeça. Estava no seminário, mas saí e decidi adotar o Victor mesmo solteiro. O dia que saiu a adoção foi mais feliz da minha vida. Ele tem 12 anos e tem um problema crônico renal. Tem que fazer diálise três vezes por semana. Mas, se Deus quiser, ano que vem ele ganha um rim novo e se cura — conta Bruno Dias, farmacêutico de 33 anos que adotou Bruno, de 12 anos, há um mês.

Na opinião da advogada Silvana do Monte Moreira, presidente da Comissão de Adoção do Instituto Brasileiro do Direito da Família, outro fator que emperra a fila na adoção no Brasil é burocracia. Ela diz que o processo de retirada do poder da família biológica sobre a criança, primeiro passado para início do processo adotivo, deveria durar 120 dias, mas atinge até quatro anos.

— Com isso, o tempo vai passando e as crianças vão ficando mais velhas, atingindo uma idade difícil de ser adotada — afirma a advogada.

A coordenadora das Varas de Infância do Rio, Raquel Chrispino, diz que a dificuldade em acelerar este processo está na necessidade de assegurar o direito à defesa das famílias biológicas. Além disso, a reinserção familiar é priorizada pela Justiça, explica ela.

— Eu e meu marido conhecemos X. numa segunda-feira e a visitamos nos dois dias seguintes. Três dias depois, com uma permissão especial do juiz, a trouxemos para passar o Natal conosco. Pedimos a guarda e estamos com ela desde então. Ela se encaixou imediatamente. Firmamos uma família já no primeiro dia. Não termos feito restrição quanto a idade, sexo ou cor facilitou a adoção — conta Alaíde Pires, jornalista que está há dois anos em processo de adoção.

Fonte: Extra

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porDiogenes Duarte

Adoção sem barreiras

MARLETH SILVA, 38 anos, jornalista, solteira, adotou THIAGO quando ele tinha 6 anos. Hoje, mais do que nunca, sabe que a gente se apaixona pelas crianças maiores assim como pelos bebês.

“Realizei meu sonho de adotar uma criança em 2004: reuni a papelada exigida em uma semana e, passados menos de quatro meses, fui apresentada ao meu filho. O processo andou mais rápido do que eu esperava, porque não coloquei limitações quanto à idade da criança. Uma tarde, a psicóloga da Vara da Infância me telefonou avisando que eu poderia conhecer o Thiago na casa-lar onde ele vivia: se eu confirmasse a adoção, o processo se iniciaria. Se dissesse não, esperaria até me colocarem em contato com outra criança. Preferi abrir mão dessa possibilidade de escolha – que achei assustadora e antinatural – e aceitar o menino antes mesmo de vê-lo. A partir daí, passamos por uma fase de adaptação, com o Thiago ainda morando na casa-lar. Numa de minhas visitas, anunciei que queria ser sua mãe e ele não me fez muitas perguntas. Criança não fica raciocinando como será o relacionamento. Tudo o que ele queria era conhecer nossa casa, sair para brincar, tomar sorvete, chamar seus amigos para ir ao McDonald’s conosco. Depois de quatro ou cinco encontros, Thiago já gostava de mim, eu dele, e me pediu para ir para casa. Simples assim.

Nas primeiras semanas, meu filho me chamava de tia e eu sentia dificuldade para dizer coisas como vem com a mamãe”. Isso foi há quase dois anos. Desde então, tudo melhorou, nós dois relaxamos. Um dia, em um consultório médico, a secretária perguntou o nome do pai dele para pôr na ficha. Respondi que ele não tinha pai. Thiago entrou na conversa todo animado e deu um susto na moça: “Sabe por que eu não tenho pai? Porque fui adotado”.

Ele disse essas palavras como quem divulga uma grande notícia. Me dei conta de que, na cabeça dele, ganhar uma família aos 6 anos – portanto, depois de muito tempo de espera – foi um evento feliz. Tanto que uma vez não entendeu um desenho animado em que um menino chorava ao saber que tinha sido adotado. Para aquele personagem, a descoberta representou um choque. Para o meu filho, a adoção teve outro sentido: ele foi escolhido, sente-se amado por uma mãe que não passa um dia sem dizer que ele é a coisa mais maravilhosa que ela já viu. Inicialmente, como a maioria das pessoas, eu pensava em uma criança pequena. Até uma psicóloga que consultei enfatizou que eu devia adotar um bebê. Mas minha experiência como voluntária (durante três anos, eu levava grupos de crianças para passear) me mostrou que a gente se apaixona pelas maiores assim como pelos bebês. Isso derrubou uma barreira e facilitou tudo.

Nunca imaginei a dimensão da felicidade que a maternidade me traria. Muitas vezes me perguntei como foi possível acontecer tamanho milagre. E ainda que eu saiba que não houve nenhum fenômeno misterioso, que tudo é resultado de um movimento meu (inscrever-me na Vara da Infância, aceitar aquele menino), preciso da palavra “milagre” para expressar a revolução que ocorreu na minha vida.

Fonte: Revista Cláudia

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porDiogenes Duarte

Perguntas e Respostas – Adoção Tardia

Escrito por Elena Andrei – Antropóloga

1) Qual o perfil das crianças que são mais procuradas para um processo de adoção?

As crianças mais procuradas são recém-nascidas, brancas (de preferência, louras) e meninas. São as crianças “ideais”, os fantasmas dos desejos de uma sociedade moldada pela propaganda e por valores estéticos europeus e/ou americanos. Este é o perfil de uma boneca, não de uma criança pois acredita-se que a menina será mais dócil, mais meiga e amiga e que esta criança encantada, dotada de todas as qualidades e valores (porque também é saudável e nunca viu ou foi tocada pela mãe biológica, da qual é resgatada miraculosamente), esta “criança das fadas” é capaz de apaziguar todos os tormentos de seus pais adotivos e de compensar todas as longas esperas e frustrações. Aliás, é por isso que esses pais vai buscar essa criança no Sul, terra de louros, e não querem passar pelos entraves burocráticos da adoção legal: porque essa criança idealizada, essa “Bonequinha”, não pode ser confrontada com a realidade normal de uma criança de verdade.

2) Que preconceitos e mitos inseridos na cultura brasileira interferem e prejudicam a opção pela adoção de crianças maiores de três anos de idade?

A sociedade brasileira vê a criança ainda como uma posse que está, de certa forma sob o controle do adulto que decide como, quando e de que forma deve amá-la e formá-la. Uma criança de mais de três anos, tendo vivido uma experiência marcante (e marcada) de internamento institucional, violência ou abandono é uma criança que traz uma história difícil de ser controlada. Se a criança tiver mais de seis ou sete anos não terá mais a aparência de bebê e não “pode mais ser educada como deve: traz vícios de formação”; se for um menino e tiver a tez escura, então, não é mais uma pobre criancinha: é um “de menor”, delinqüente em potencial e muito perigoso, que “ninguém vai se arriscar a botar na sua casa”. Esses preconceitos são frutos de uma sociedade profundamente segmentada, com alta concentração de renda e que ainda não desenvolveu uma solidariedade fundamental de pessoa a pessoa. Por isso, a criação paulatina e teimosa de uma cultura da adoção, como é o projeto dos Grupos de Apoio em todo o Brasil, é tão importante. Trata-se de ver nossas crianças como crianças e como nossas, como a parte mais importante e vital de um futuro que se quer mais humano e desassombrado.

3) Quais as possibilidades de uma criança maior de três anos adaptar-se a uma nova família?

É preciso dividir essa “criança maior de três anos” em quatro grupos, pelo menos: dos 02 aos 06 anos, dos 07 aos 10 anos, dos 11 aos 14 anos e dos 14 aos 18 anos. Cada grupo desses tem suas próprias especificidades e desafios. O primeiro grupo é o de crianças pequenas e, se a dor delas é excruciante pois são completamente indefesas diante da maldade, sua capacidade e prontidão para receber amor é imensa, podendo se adaptar com bastante facilidade, uma vez enfrentadas as sombras e feridas. O segundo grupo é o de crianças que já construíram e, às vezes, já desconstruiram a esperança; estão na fase de encontrar o esboço de suas identidades e as vicissitudes de uma vida amarga tornam isto muito difícil.

Sua adaptação depende, não só de muito amor, mas de muita disponibilidade para enfrentar a revolta e refazer caminhos que se perderam ou foram truncados. O terceiro grupo é dos que têm até sonhos, mas não têm mais esperanças e suas fantasias são fora da realidade pois a realidade é doida demais; se estão na rua, já foram capturados pela prostituição e pelo delito; se estão num orfanato, multiplicaram a primeira e original rejeição pelas dezenas de vezes que viram outras crianças menores mais brancas, ou meninas, serem levadas por uma família e eles, não: essa rejeição cotidiana como uma farpa de sofrimento que condiciona sua auto–imagem e deforma o mapeamento de sua existência. Sua adaptação, numa família adotiva, depende de amor, de um profundo senso de responsabilidade dos pais, de uma lucidez capaz de compreender os problemas e demandas dessa criança, quase adolescente, de forma a fazê-las elaborar e superar o passado para se tornar um adulto feliz. O quarto grupo já é formado por adolescentes e é marcado pelas dificuldades de uma infância abandonada e pelas ambigüidades desta. Nos dois últimos grupos o acompanhamento especializado de assistentes sociais e psicólogos, antes, durante e depois (principalmente, depois) de concretizado o ato da adoção é de extrema importância.

Sim, a adaptação de uma criança maior é possível. Mas, mais do que isso, é necessária, pois trata-se de uma criança, de verdade, de um ser vivo e único que não pode ser jogado fora só porque não corresponde à fantasia que os adultos têm de uma linda boneca.

4) Quanto tempo em média leva o processo de adaptação de uma criança a uma nova família e de que fatores depende?

A bibliografia permite estabelecer uma média de 02 anos para que a criança supere o medo de ser rejeitada novamente e se permita confiar e estabelecer relações de afetividade com os pais. É claro que esta média depende de cada caso e de cada criança, mas talvez, os fatores determinantes sejam o real compromisso amoroso dos pais em relação à criança (diferente do amor romântico que, muitas vezes, se despedaça diante da realidade de uma criança que guarda demônios dentro de si, que afloram durante o período de adaptação); a serenidade e equilíbrio dos novos pais para não exigir de si e da criança mais do que cada um pode dar e ser; a presença de um grupo familiar, de amigos e de referências sociais coerentes e cúmplices; e, não ter medo de buscar a ajuda profissional de um psicólogo e/ou o amparo dos Grupos de Apoio da cidade ou região: é muito importante para os pais e para a criança a certeza de que não estão sozinhos e de que as dificuldades que enfrentam não são únicas.

5) Este período de adaptação da criança apresenta características específicas em determinadas fases. Você poderia definir as fases mais importantes?

Levando em conta a especificidade de cada situação, poderíamos, muito no geral, assinalar as seguintes fases: um primeiro momento de encantamento – a criança está feliz de ser escolhida e sair da rua ou do orfanato e os pais estão apaixonados pela criança e pelo gesto de acolhimento. Dura muito pouco, pois a criança, ou não tem idéia clara do que é uma família (tem idéias fantasistas ao extremo), ou tem uma idéia terrível e os pais também descobrem que aquela criança não é o seu rebento, mas um indivíduo em si mesmo. Um segundo momento – o da raiva e da decepção, assinalado pela necessidade de “marcar territórios”. Este período pode ser chamado o período do “não”, quando a criança exercita um direito que nunca lhe fora dado: o de dizer não – é uma tentativa simbólica de controlar e refazer a sua vida. Dependendo da criança e da maturidade dos pais, este período pode ser superado ou pode conduzir ao pesadelo da adoção tardia: a devolução.

Um terceiro momento – quando a criança entende que encontrou uma família, pai e mãe e se dispõe a refazer pedaços de vida, é a fase em que a criança apresenta problemas de aprendizagem, volta a fazer xixi na cama, exige atenções de um bebê, podendo querer mamadeira ou pedindo afagos e colos de uma criança pequenina. É uma fase muito confusa e, às vezes, tão desgastante quanto a segunda para os pais, pois a criança parece incapaz de estabelecer relações sociais satisfatórias.

Um quarto momento – do “insight” amoroso: a criança percebe que, apesar de tudo, aquele são seus pais, eventualmente não perfeitos nem ideais, mas verdadeiros e presentes e os pais percebem que aquela criança que está com eles vai crescer, vai viver e se tornar um adulto; não é um lindo gesto de altruísmo encarnado, é uma criança de verdade, a sua criança. É o mais bonito momento da adoção, com certeza.

Muitas vezes existe um quinto momento – quando, na adolescência, a criança busca conhecer os pais biológicos. É um momento muito tenso e que só pode ser enfrentado com muita ajuda, muita calma, muita firmeza e muita generosidade. Geralmente o adolescente só quer estabelecer seus parâmetros de vida e, quando a relação parental é sadia, não significa que está rejeitando os pais adotivos, apenas que procura contar, para si mesmo, sua própria história.

6) Que perfil de pais é o mais adequado para um processo de adoção tardia?

Pais que sejam realmente adultos, capazes de amar e de se dedicar com generosidade e lucidez, sem ilusões românticas e piegas. Pais que sejam pessoas capazes de construir uma casa aberta, capazes de se comprometer com o mundo e com ideais que transcendam os desejos egoístas e mesquinhos.

7) Quais ingredientes são indispensáveis para que uma adoção tardia tenha sucesso?

Depende da situação e, principalmente, da faixa etária do adotado. Mas creio que os ingredientes indispensáveis são a generosidade, a lucidez, a paciência e a consciência da responsabilidade assumida. É também fundamental – mas fundamental, mesmo – o acompanhamento psicológico durante o período de guarda e depois da adoção definitiva a fim de acudir pais e filhos nos momentos mais stressantes e perigosos do percurso.

Normalmente, não temos este acompanhamento, tudo se passa como se uma vez feita a adoção, o problema esteja resolvido magicamente. Na verdade, é nesse momento que os problemas começam.

8) Quais as dificuldades mais freqüentes observadas no relacionamento pais-filhos adotivos tardios?

A decepção de ambos. Os filhos adotivos tardios idealizam demasiadamente a vida familiar, realmente não sabem o que é uma família com sua rede de direitos e deveres. O que eles chamam de querer uma família é, na verdade, querer sair da rua ou da instituição e poder ter tudo o que eles sonham. Eles tendem a se sentir traídos ao descobrir que a vida familiar tem regras e limites. Quando o adotado é adolescente ou quase, um dos fatores mais complicados é que ele não teve tempo de decidir se realmente quer amar os pais que o adotaram; a natural rebeldia adolescente, no caso, pode se revelar numa negação furiosa desses adultos que o adotaram e que querem ter algum direito sobre ele. Os pais, por sua vez, se decepcionam quando a criança maior, “que já deveria entender as coisas”, reage de uma forma agressiva, se nega a fazer parte da família que o acolheu ou apresenta comportamentos regressivos e/ou mimados, querendo tudo e se negando a dar qualquer coisa.

Se estes confrontos não forem apaziguados, a adoção tardia pode acabar em devolução, o que fere a ambos, mas, principalmente, à criança de um modo implacável. É preciso que os pais se lembrem que a criança ou o adolescente estão testando essa nova relação com as armas que lhe foram dadas: o medo, a raiva, a desconfiança. Se lembrem que uma criança mais velha aprendeu a não amar, pois todos a quem se ligou afetivamente foram embora: os pais, os funcionários, os colegas de quarto ou de marquise. Calma, paciência e firmeza são as qualidades necessárias para prosseguir neste que é um verdadeiro resgate. Aos poucos, a criança percebe que o amor é uma dádiva e não uma ameaça. Então, ela se permite voltar a ter fantasias, sonhos e esperanças. A tempestade aconteceu, os danos foram reais, mas no porto seguro é possível fazer os reparos necessários, juntos, pais e filhos, e seguir juntos na viagem que é a vida.

9) Como superar estas dificuldades?

Complementando a resposta anterior, devo acrescentar o papel importantíssimo dos Grupos de Apoio, onde os pais podem desabafar, falar de seus problemas e descobrir que não são únicos nem estão sozinhos. Por outro lado, a atividade, os debates, a participação, faz com que se lembrem que sua escolha tem um alcance social e ético que ultrapassa os problemas localizados de cada um.

10) Qual a importância dos pais adotantes passarem por um processo de preparação para a adoção antes de efetuarem uma adoção tardia?

Quando se adota um recém-nascido está se procurando resolver, na maioria dos casos, problemas de carência e sofrimento dos adotantes; a criança é beneficiada como uma conseqüência desta solução. A criança é vista como não tendo quaisquer problemas pois não teve uma vida anterior: nasceu no coração dos pais adotivos que, muitas vezes, se negam a cantar que a criança não é filho biológico.

No caso da adoção tardia, esse atalho não existe e, como vimos, as variáveis são bem maiores. Portanto é absolutamente necessário uma avaliação criteriosa dos pais, um longo processo de preparação (para o futuro filho também) e um acompanhamento posterior para que tudo dê certo. Sem o período de preparação, os pais se arriscam a entrar na adoção tardia sem ter a clara noção das dificuldades a serem enfrentadas e como resolvê-las. Outrossim, seria desejável que os pais que se candidatam a uma adoção tardia tenham uma experiência anterior e uma vivência familiar rica a fim de que não sejam surpreendidos pelos percalços que virão.

11) Esta preparação seria em que nível e que órgão deveria exercer esta função?

Os Grupos de Apoio à Adoção em parceria com os Juizados da Infância e Juventude. Outros órgãos como grupos religiosos ou clubes como o Rotary ou ACM, podem ter também um papel importante. Vale lembrar que a adoção tardia é de cunho eminentemente social, tanto quanto é um gesto pessoal de amor e escolha. Adotar uma criança maior é o resgate de uma vida que se ia perdendo no porão da indiferença e na violência da marginalidade.

Fonte: Boletim Uma Família para uma Criança – org. Fernando Freire/ABTH – ano II, nº15
DATA: 26/06/99

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